Imaginar Geografias

Updated: Sep 23, 2020

A música acende as imagens. Palavras de ódio que condenam os migrantes. Cacofonias de línguas, vê-se no escuro a dor dessa Babel eterna, que trafega nos subterrâneos dos navios e nos transportes ilegais. Essa é a história do movimento dos lugares e das pessoas. Uma história longa, de diversos tamanhos, mas que cabe na obra iniciada.


Imaginar Geografias – a dançarina dança o movimento da natureza. Na tensão de seus gestos pode-se pressentir a força que separa e une os continentes. Então o que está na dança é a força essencial, que acomoda e reacomoda aquilo que junto pertence à grande alma única. E nessa alma, joga-se luz no que moveu para ocultar o que ficou.


Um grande mapa de areia e pigmento é forjado pela dançarina. Imagem menor de um mundo, porém, não menos verdadeira. Ponto em que se encontram dança, música e luz. A música conduz as palavras, ampliando seus significados múltiplos. E vozes migrantes gritam no silêncio da música. Nas irregularidades do mapa, desenhos de luz e sombra se sucedem. E assim colocaram o movimento contínuo no palco, fazendo dele o cenário de uma tragédia conhecida.


Existindo na força nada é involuntário. Os movimentos migratórios não são involuntários pois contrariam a solidariedade originária entre lugar, pessoa e ser. Sair do lugar é afastar-se de si e deixar o próprio ser em outro lugar. E ninguém quer apenas ganhar dinheiro em outro país, mas, antes disso, reencontrar uma parcela da alma que não vê, algo que, comumente, chamamos vida. O que se quer primeiro e sempre é a vida, mesmo sabendo que a morte dela faz parte.


A dançarina constrói muros e cercas com fios. Uma imagem eficaz da tentativa absurda de conter os movimentos da vida. Discurso político. E a teia de muros e cercas torna-se cada vez mais densa. E como uma aranha suicida, a dançarina se contorce na teia que ela mesma criou. E sua coreografia adensa, seus gestos multiplicam, como se pudessem anunciar a exaustão da força. Não podendo mais desvencilhar-se dos fios, tem-se afinal a imagem caótica de um mundo cerceado. Desse modo, o ser afastado da realidade encontrou refúgio na realidade da obra.


Ficha técnica

Direção e performance: Julia Salaroli

Concepção sonora e difusão ao vivo do som: Marcus Neves

Cenário de areia e nylon: Polliana Dalla Barba e Julia Salaroli

Cenário de metal: Colette Dantas com assistência de Sandra Chagas. Cenotécnico: Sérgio Chagas.

Exposição: Polliana Dalla Barba com a participação de Nathália Vargas, Natália Primo e Vanderson Passos.

Programas de rádio: Fannie Vrillaud

Fotografia: André Alves.


Recent Posts

See All

Eles buscam a palavra unânime na canção de protesto. É a canção que traz à memória as noites úmidas, quando estudantes saíam do teatro barulhento com a sensação de terem feito algo pelo país indiferen

Originalmente publicado em A Gazeta – Caderno 2 Pensar (22) – Vitória, 08 de Abril de 2017 Na terra úmida os galhos retorcidos dissolvem. No silêncio dos cantos sombreados escuta-se a vida escondida.

Posts Em Destaque
Posts are coming soon
Stay tuned...
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
No tags yet.
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square