Quintal Antropofágico

Updated: Sep 23, 2020

Originalmente publicado em A Gazeta – Caderno 2 Pensar (22) – Vitória, 08 de Abril de 2017



Na terra úmida os galhos retorcidos dissolvem. No silêncio dos cantos sombreados escuta-se a vida escondida. Aos poucos outros ruídos brotam no Quintal e as coisas brilham, como fótons que caem do verde das folhas. A música resguarda a comunhão da vida na terra, fazendo com que todo existente compartilhe de uma mesma energia e destino. A vida é o transitório incessante e a terra é o coração de preto que pulsa em ritmos inconfundíveis. Quintal traz as batidas do Congo, do Ticumbi, do Jongo, do Reis de Boi, do Soul, do Funk e do Ijexá ... – força única e unificadora que sustenta a identidade de uma raça que é feita mais de história e menos de DNA.


A alma movimenta-se como os sons que adentram os sentidos. As canções são assimiladas com facilidade. Embora de distintas autorias e gêneros, as canções encaixam-se umas nas outras; em parte, devido à simplicidade de suas formas (estrofe/refrão/estrofe) e também por causa da proximidade de seus tons. Tudo isso contribui para fortalecer o sentimento de unidade que a obra propicia. Na segurança desta unidade, escuta-se os diferentes que se mostram como são. Descobrir que os sons orgânicos e os sons eletrônicos são feitos de uma mesma humanidade. Saber que a delicada poesia das letras cotidianas fala da dor e do prazer da realidade. E deixar que os sons das festas, registro da paisagem sonora dos Congos, sejam simplesmente música das palavras. E pode-se ouvir a tensão entre o estranho e o familiar, tensão que existe na arte e na vida, como se dois fossem um.


No Quintal escutam-se os timbres como nunca antes. Falo daquela faculdade de supor a proveniência dos sons; de saber uma primeira vez que é a voz da mãe, para depois reconhecer um tambor, uma casaca e um violão. A formação de timbres é variada e complexa. Em um primeiro plano, a onipresença da voz segura de Fabio Carvalho, os sons da casaca e do tambor do congo; em outro, a variedade que alimenta o constante jogo entre o orgânico e o sintético. Escuta-se então outras vozes humanas, os violões, a guitarra, o baixo, o piano, o trombone e a sanfona. Escuta-se, sobretudo, uma rica gama de percussões, que dá vida e cor aos ritmos: tambores mineiros, pandeiros, pandeirões, congas, caixas, pios, repique, folha de zinco, cowbell, tablas, karkabul, agogô, shaker, triângulo, Ilú, guizos, caxixi, morak, derbak, djembê, chocalho, kalimba – uma mistura inusitada de timbres, comunhão de territórios sonoros singulares, que convivem na unidade da música. E participando dessa formação instrumental, os sons eletrônicos e sampleados – um toque de atualidade dado por sons que participam do cotidiano intermidiático, tais como: rhodes, clavinet, drum machine, synth, pads, hammond, clavinet, e o multifuncional teclado.


Essa variedade de timbres, que faz o familiar e o estranho serem imediatamente assimilados, é a porta de entrada para o conceito do CD. Quintal é da ordem das poéticas da mistura, antropofágico, como possivelmente entenderia Oswald de Andrade; algo como comer o estrangeiro (exógeno) para vomitar a síntese do nacional. Das sendas desse conceito que deixou raízes profundas no Modernismo Brasileiro, emergiram várias correntes de nossa música, tais como: o Nacionalismo de Guerra Peixe; o Tropicalismo; o Modalismo de Arrigo Barnabé e, recentemente, o Manguebeat de Chico Science.


A antropofagia de Quintal tem sua particularidade; ela expressa a face múltipla de sua formação, não há propriamente a síntese que transforma uma coisa em outra, mas antes, a síntese que deixa seus elementos existirem em diferentes lugares. Pela porta de entrada do reconhecimento de seus timbres, descobre-se a identidade de seus outros elementos: os ritmos pulsantes, as melodias cantantes, incisivas e belas, as harmonias simples, os poemas claros – a produção de um estado de espírito que parece caber em qualquer lugar. Quer dizer, Quintal produz deslocamentos aparentemente naturais. Certamente, o ouvinte não achará estranho escutar o Congo em um Lounge, do mesmo modo que poderia escutar o Soul em um terreiro de Candomblé ...ou simplesmente embalar-se por uma música que é de nenhum e todos os lugares.


Quintal dá rosto ao Espírito Santo, como um espelho mágico que mostra origem, futuro e presença. Tem o pé na essência contraditória da realidade, em que a identidade resiste à ação igualadora da cultura de massa. Da força impulsiva de seus tambores e casacas, erupções de energia que transpassam o tecido sonoro, da condução segura e perfeita de suas cordas e teclados, da ousada carga de humanidade que impregna seus sons eletrônicos e sua paisagem sonora, Quintal extrai o local e universal, um retrato do Botocudo de sotaque malandro, que perdeu a terra mas não perdeu o desejo de nação.


Por José Eduardo Costa Silva


***


Quintal traz as seguintes canções: Preto Velho (Douglas Bonella); Sereia (Congo do Espírito Santo); Barracão (Edson Papo Furado); Mandinga de Congueiro (Fábio Carvalho, Alexandre Lima, Amaro Lima); Rainha, o seu brinco caiu (Congo do Espírito Santo); Jardim Camburi (Marcel Dadalto e Nego Léo); Solte os cabelos (Congo do Espírito Santo); Janaína (Jonathan Silva e Fábio Carvalho); Kalimba pra Vaqueiro (Quintal) (Marcel Dadalto, Fábio Carvalho, Léo Caetano, Cons Buteri); Boi Carreiro (Congo do Espírito Santo).



Além de Fabio Carvalho (Voz, Casaca, Tambor de Congo), Quintal é feito pelos seguintes músicos (em ordem alfabética):

Edu Szajnbrum (Congas, Ilú, Pandeirão, Agogô, Guizos, Shakers, Caixas, Caixa de Congo, Caxixi, Cowbel, Triângulo, Baia, Pandeiro, Ocean Drums, Folha de Zinco, chocalho);

Indiara Couto (Casaca);

Janderson Valetim (Tambor de Congo);

Kiko Barbosa (Sanfona);

Léo Caetano (Violão de Nylon, Violão de Aço, Guitarra, Piano Elétrico, Hammond, Rhodes, Clavinet, Samples, Pads, Strings, Programação);

Lucas Maia (Pandeiro);

Marcel Dadalto (Teclados, Synth, Drum Machine, Piano, Violão de Aço, Baixo, Guitarra, Rhodes, Programação, Samples, Cowbell, Kalimba);

Mestre Vitalino (Casaca);

Raay Abranches (Casaca);

Viviane Barreto (Tambor de Congo);

Vitor Vantil (Violão 7 Cordas).



Participações especiais (em ordem alfabética):


Beatriz Rego (Backing Vocal);

Cid Travaglia (Djembê, Pios e Repique);

Constantino Buteri (Kalimba);

Cristiano dos Santos Silva (Kalimba);

Dona Jura (Backing Vocal);

Edson Papo Furado (Voz);

Marcos Suzano (Pandeiro, Tablas, Karkabul, Agogô, Shaker, Triângulo);

Rafael Rocha (Trombone);

Raquel Coutinho (Tambor Mineiro, Patangome);

Vaqueiro dos Reis de Boi de Mestre Neném de Oleiro (Sample).


Direção artística – Fabio Carvalho

Direção musical – Marcel Dadalto

Produção musical – Marcel Dadalto, Leo Caetano e Fabio Carvalho

Arranjos – Marcel Dadalto e Leo Caetano

Produção executiva – Fabio Carvalho e Alcione Dias

Assistente de produção – Kika Gouvea e Raiane Abranches


https://www.youtube.com/watch?v=gPZC3tE8smI&feature=youtu.be







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