Sobre uma antiga canção de protesto.

Eles buscam a palavra unânime na canção de protesto. É a canção que traz à memória as noites úmidas, quando estudantes saíam do teatro barulhento com a sensação de terem feito algo pelo país indiferente. Não demorei a gostar dela, pois reconheci minha origem na introdução. Sua música é familiar; ela tem a harmonia diatônica cadenciada por acordes diminutos e métrica de valsa.


A canção é portadora de história. Mais remota que as canções da década de 60, ela é um choro melancólico que respira e aperta o peito do ouvinte. E se é sabido que uma canção aprende com outra, há sempre de se escutar a lembrança que mais perdura na música que transcorre. Escuto a resistência dos Chorões que fala com palavras no poema. Assim a mimese imperfeita, que mistura gêneros distintos, fica verdadeira; e o que é cópia é pura realidade desorganizada.


Uma realidade ríspida; para quem a luz do sol traz o novo dia e a consciência política. É a realidade de quem “toma cachaça” como café da manhã e sabe que “alimento ou ração” é razão de viver. Mas a força que está nas palavras renascidas é a mesma que dedilha os baixos do violão choroso. O protesto é resistência, como a sonoridade de um regional que atravessa épocas e contextos.


“Tirar nossos irmãos de trás das grades. / Falar só a verdade.” Versos que rimam e combinam suas sílabas poéticas. Todavia, há o pedido de prisão para os que “merecem”, sem direito à rima ou continuação de ritmo. É assim que a doçura da música embala o fogo das palavras, para que a voz do cantor não queime, ao expirar a coisa ruim que ele tem presa dentro de si.


O oprimido canta o refrão que dá contorno circular à forma: “Calo enquanto sinto...” Expressão de uma ética íntima que quer ser social, não obstante, as “traições acatadas”, as “delações” e as “alcovas”. Pois a esperança fala ao ouvido dos operários, palavra que na canção supratemporal designa a totalidade dos trabalhadores. E o compositor-poeta pode dormir enquanto a música continua em uma cadência interrompida.


Certamente, à Indústria Cultural não interessa mais a canção de protesto. Não porque ela esteja fora de moda ou porque não tenha nada a dizer. Pelo contrário, sempre há um “braço a ser libertado”. Mas fundamentalmente, ao mercado não interessa a canção que perdura, pelo simples fato de ser linda. Não me lembro de tê-la ouvido antes. Foi um encontro casual. E pra mim como para outros tudo fez sentido, pois ela trouxe movimento à alma; afinal sou um dos “Josés” que a salvaguardam.


* A propósito da canção “Por do sol” de Carlos Papel e Paulo George. Disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=sWmQ7gypRgU&ab_channel=carlospapel


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Originalmente publicado em A Gazeta – Caderno 2 Pensar (22) – Vitória, 08 de Abril de 2017 Na terra úmida os galhos retorcidos dissolvem. No silêncio dos cantos sombreados escuta-se a vida escondida.

A música acende as imagens. Palavras de ódio que condenam os migrantes. Cacofonias de línguas, vê-se no escuro a dor dessa Babel eterna, que trafega nos subterrâneos dos navios e nos transportes ilega

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